O que vem à cabeça quando ouvimos a palavra Temporário? Quais associações estão presentes em nosso imaginário? Quais experiências nos remetem? Apesar de, em geral, remetermos a uma experiência de trabalho, ouso dizer que as respostas a essas perguntas passam inevitavelmente pelos recortes de classe, raça, gênero, territorialidade, faixa etária. Para algumas pessoas (poucas, pouquíssimas) a palavra ‘Temporário’ pode remeter a uma experiência de intercâmbio feita muitas vezes para aprimoramento de um idioma, algum trabalho de cunho voluntário no interior do Brasil ou no exterior ou um trabalho sazonal para tirar um “dinheiro extra”. Para a maioria esmagadora da população brasileira, a associação mais comum é a de esperança. Explico: são aqueles postos de trabalho que assinalam a possibilidade de inserção no mercado para quem está no limbo e na ansiedade de não ter experiência profissional ou são as vias de recolocação para quem está no desespero do desemprego. Associamos também (mas isso falamos baixo, cá entre nós, os pares na adversidade) às situações precárias, vexatórias, tarefas pouco ou nada valorizadas, ao trabalho pesado, desvalorizado, entre outros males que “devemos” suportar, afinal, é como dito acima, também a esperança de dias melhores profissionalmente e financeiramente (será?). Coloca-se aqui o dilema político, social, cultural e psíquico dessa palavra: TEMPORÁRIO. Aquelas/aqueles que passarão… Quem são os temporários que você conhece ou já conheceu? Aliás, você consegue lembrar dos rostos e dos nomes destas/destes trabalhadoras/es com quem conviveu por algumas semanas ou meses? Você já foi um? Conhece quem foi? Essas provocações estiveram presentes na performance Temporário. Estão presentes no texto a seguir e ainda reverberam em quem fez parte dessa construção. Tive a honra e a alegria de acompanhar e orientar a turma de educandes (tento escrever numa perspectiva não binária ainda que com a dificuldade de um idioma extremamente binário) que construiu o espetáculo como seu trabalho de conclusão de curso no Projeto 1ª CENA, do Coletivo Usina dos Atos. Decidimos pela linguagem da performance para comunicar em camadas mais profundas, hora com ações e símbolos sutis, hora com um “tapa na cara” de uma
cena que traz aquele desconforto, aquele riso meio de lado. Desnudam-se opressores e oprimidos, jogos de poder, desigualdades. Assimetrias bailam diante de nossos olhos através de cenas e diálogos por vezes tão prosaicos e cotidianos, mas que trazem todo um universo de relações que vêm de uma sociedade com passado escravocrata, profundamente racista, machista, elitista, capacitista e LGBTfóbica. Adolescentes periféricos do extremo leste de São Paulo, sonhadores, artistas, corajosos, trouxeram sua bagagem de vida, sua e de seus familiares. Trouxeram a marca do viver na Cidade Tiradentes e suas adjacências. Trouxeram seus sonhos, seus medos, suas potências e as muitas adversidades que enfrentaram. Temos a entrevista de emprego, o caminho para o trabalho, o trabalhador sobrecarregado, a mulher-mãe-trabalhadora, o assédio moral e sexual no trabalho, o trabalho alienado, o trabalho explorado, o trabalho precário, o trabalho informal, a ausência de trabalho. Temos os vieses inconscientes dos muitos preconceitos e discriminações enfrentados por mulheres, negras e negros, LGBTQIAP+, PCDs (pessoas com deficiência), a população periférica, a população idosa. Temos também as resistências, as frestas, as pequenas subversões e contestações, afinal também existe aqui a consciência de classe, o antirracismo, o feminismo, o combate às opressões e explorações. Ao fim e ao cabo, temos de manter acesa a chama da transformação, da revolução, mesmo quando parece não haver saída. Contradições talvez seja a palavra que melhor define esse texto, no plural mesmo, pois são várias. Onde há contradição, há dilema, há contestação, há mudança. Que o princípio marxista da dialética não nos deixe mentir! Desejo que Temporário contradiga, questione, intrigue, emocione e dê aquele comichão em todes que estão neste mundo para mudar.
Karen Nunes
Educadora de Cidadania e Política no Projeto 1ª CENA
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R$35,00Preço
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